Aquilo que todos pensamos uns dos outros...
O que é exactamente um "estranho"? E quem deu à palavra "estranho" uma conotação tão negativa? Um estranho... um desconhecido. E quando é que passa a ser um "conhecido"?Estou a divagar, é certo...
Imaginem então que encontraram alguém mesmo muito simpático, alguém com quem não se importariam de ir beber um copo, ir ver um filme ao cinema e por aí fora, mas que, infelizmente, nunca viram mais gordo. É-vos portanto: um Estranho. Contudo, ou vocês ganham coragem, metem conversa, ou é mesmo o vosso alvo, que vos interpela e, vai daí, inicia-se uma agradável conversação. Tudo muito bem. No meio deste jogo todo não existem segundas intenções - não que elas não vos tenham passado pela cabeça - estão apenas a conversar, trocar opiniões, perdoar bácoras, curtir uma eventual bebedeira. No fundo, estão com alguém, com quem nunca teriam tido o menor relacionamento, não fora a situação em que se encontraram e no meio da multidão que vos circunda não haver mesmo mais ninguém com o mínimo interesse. De qualquer maneira, após algum tempo neste pequeno jogo antropo-social um dos dois tem que se retirar e acaba ali, sem nada de extraordinário a recontar, o vosso breve encontro. Agora impõe-se uma análise. Afinal o que vos é aquele indivíduo?
- Conhece-lo? - perguntam-vos.
- Sim.
E é verdade, conhece-mo-lo, estivemos a falar com ele/ela durante umas horas. Mas, na verdade conhece-mo-lo? Sabemos talvez o primeiro nome - por vezes nem tanto - sabemos que gosta de música rock, de comida indiana, de ir à praia com os amigos e sair à noite. Sabemos que usa um after-shave agradável, que por vezes conjuga incorrectamente a terceira pessoa do plural e que prefere o vodka-tonic à cerveja. Sabemos que somos de areas completamente diferentes, que por vezes não conseguimos deixar de desviar o olhar para o tipo mais giro da sala e que ele é, de longe, intelectualmente inferior a nós (ou então o nível de alcool no sangue lhe está a atrufiar os raciocínios).
Ou seja, não o conhecemos, porque aquilo que sabemos são julgamentos prévios, alguns preconceitos e muita conversa fiada.
Lá está: é um Estranho? Mas não é um desconhecido. Aliás, nunca diriam a ninguém: "Olha, estive agora a conversar com um estranho. Um desconhecido com quem meti conversa. Era simpático, estava um bocadinho tocado e gosta de jogar bridge."
E o pior de tudo é que a palavra "conhecido" está tão cheio de conotações satíricas, que nem vale a pena ir por aí.
Na verdade, não estou a tentar chegar a lado algum com isto, apenas a ver se descortino uma maneira de explicar à minha mãe quem eram aqueles tipos que no outro dia me trouxeram a casa...
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