In-socializar, um problema inerente em todos ou s'o em mim?
Para que o leitor compreenda um pouco melhor o conteúdo deste post, há que voltar atrás no tempo, à época em que eu não passava de uma cachopa, sem muito que contar.Nunca fui alguém muito sociável. Bem o queria ser, contudo, as condições que impunha a mim mesma para fazer qualquer tipo de amizade eram tais, que acabava sempre por pouco ou nada socializar com muitos dos meninos que me rodeavam.
Pelo pouco que me lembro não era assim de início, mas lembro-me de, ao entrar na escola que me durante catorze anos, achar todos os meus colegas, simplesmente estúpidos. Eram todos, quase sem excepção, “meninos-bem”, com nomes compridos e inpronunciáveis e impunham nos seus joguinhos infantis regras que me pareciam absolutamente inaceitáveis. Lembro-me de um jogo em particular, que se baseava em mostrar as cuequinhas (na época, tudo inócuo e cheio de bonecos da Disney). Parecia-me impróprio, ridículo e nunca quis compactuar com tais atrocidades. Era algo menosprezada e passava grande parte dos intervalos num canto do jardim a murmurar coisas imperceptíveis para mim mesma. O facto de falar sozinha nunca ajudou muito nas minhas relações inter-pessoais… De qualquer maneira, as premissas que impunha na época pouco diferem das que imponho agora: pessoas que sejam minimamente inteligentes, minimamente sensatas e sem macaquinhos no sótão. Ou seja, pessoas com quem possa ter uma conversa decente, sem ter que ouvir de repente uma patacoada fascista ou uma bácora elementar.
Diga-se de passagem, ainda hoje não entendo como consegui arranjar tão bons e perfeitos amigos, quanto os que tenho. Não serão dúzias, mas poucos também não são, ou, pelo menos, para mim chegam, porque se são poucos são dos bons e isso é dizer quase tudo.
Nesta coisa do aprender a ser social, a socializar, nunca fui muito boa aluna. Sempre encaixei numa data de estereótipos fatais em qualquer escola. Era gordalhufa, caixa de óculos e sabichona. O mais curioso, é que, apesar de ser um desastre em relações públicas com indivíduos do meu tamanho, não tinha papas-na-língua quando se tratava de pessoas mais velhas. Há até uma anedota lá em casa, em que, pelo que se conta, me terem ido buscar à festa de uma amiguinha e eu estar, ao contrário do outros meninos que jogavam às escondidas ou algo do género, a conviver animadamente com os pais e avós da aniversariante. Uma velha professora minha acrescenta ainda, que, não estando eu ainda sobre a sua tutela, já a abordava recontando – e nunca percebi bem o propósito disto – os mais recentes episódios da novela em horário nobre. Eu devia ser, de facto, uma criança algo dissemelhante…
Os problemas de comunicação e relacionamento imediato continuaram. Lembro-me perfeitamente de odiar – na perfeita ascensão da palavra – brincar com os outros meninos na praia. Se me vinham com aquela velha abordagem do: “Queres brincar comigo?” – a resposta era sempre, invariável e redundantemente: “Não!”. Sem quaisquer cerimónias. Preferi muitas vezes estar só comigo, assim em-mim-mesmada, do que com outras criancinhas, que eu desde sempre – e ainda hoje – acho tremendamente irritantes.
Era aquilo que os adultos consideram uma criança ajuizada, uma menina bem-comportada, uma rapariguinha calma. Todavia, e contradizendo tudo aquilo que eu exteriorizava, o que eu mais queria era ser popular. Talvez este desejo não se tenha revelado logo aos quatro ou cinco anos, quando abominava os queques do meu colégio, mas ao entrar na adolescência apercebi-me muito rapidamente disso. Mas, lá está, as minhas condições continuavam as mesmas e não era por me sentir associal, que iria passar a conviver com qualquer besta que se me pusesse à frente.
A minha timidez foi sendo maquilhada com toneladas de exibicionismo furtivo, com uma persona ruidosa e tagarela que eu interpretava na esperança de alcançar um público que me aprouvesse. Até certo ponto fui bem sucedida, mas iludi muita gente também, que hoje me toma por uma pessoa prá-frentex e arrojada, quando continuo a ser, bem cá no fundo, a envergonhada Joaninha.
Ao longo da minha, ainda, jovem vida, fui aprendendo truques e passos, pelos quais me orientei para socializar. Apercebi-me que sou um pouco como um horrível necrófago. Muitas vezes aproximo-me de pessoas mais fracas, com maiores probabilidades de me aceitarem, tudo para não fiar sozinha. Depois, lentamente, acabo por me aproximar dos outros, dos normais, dos populares, e aí tornar-me até um deles, alguém com nome, alguém acompanhado. Os fracos, os primeiros degraus, acabam por ser deixados para trás, como restos, restos que eu já fora também. Para minha sorte, apercebi-me de que este processo se ocasionava apenas em relações de curto prazo, em situações nas quais me via coagida a relacionar-me e não tinha outra escolha senão começar pelos elementos mais fracos da cadeia. Com as minhas relações a longo prazo, relações pelas quais não tive que fazer qualquer esforço hercúleo para as obter, nada disto é uma realidade e ainda bem.
Por norma todos aqueles que me conhecem dizem ter tido a princípio uma ideia completamente diferente de mim. Já me disseram que me achavam um bicho-de-mato, que eu vim mais tarde a revelar não ser. Já me contaram que a princípio me tomaram por uma presunçosa, megalómana e histérica, sendo essas mesmas ideias mais tarde refutadas ao me conhecerem melhor.
O pior, como muitos leitores irão atestar, é sem dúvida o início. Como começar uma conversa sem que acabe num silêncio morto? Como relembrar os nomes dos outros e fazer com que se lembrem do nosso? Como fazer com que nos achem interessantes e voltem a falar connosco sem ser para nos dizer para sairmos da frente?
Como posso não me sentir tão mínima e invertebrada, quando ouço as pessoas lá fora, do outro lado da porta do meu quarto, e não tenho a mínima coragem para as abordar? Gostava de lá ir e, com o melhor dos meus sorrisos, dizer muito calma e despretensiosamente: “Hello! I think we haven’t been properly introduced. I’m Joana? What’s your name?”.
O leitor pode transpor esta situação para qualquer outra na qual se encontre na imposição de socializar o mais depressa possível – imagine-se uma festa importante na qual não conhece ninguém, um jantar no qual estamos isolados entre desconhecidos e não queremos apenas mastigar, ou um work-shop no qual nos sentimos ignobilmente ignorantes e não queremos expor a nossa questão para um público maior que o nosso colega do lado.
Acho que, inevitavelmente, todos nós num momento ou outro nos sentimos uns incapazes em matéria de socialização. Mesmo aqueles que tomamos por sociais natos se perguntam inúmeras vezes como abordar uma pessoa ou como não se sentir tão sozinho numa sala tão populada. Judith Martin disse uma vez: “«What shall I wear?» it’s society’s second most frequently asked question. The first is «Do you really love me?»”.
Todos enfrentamos o consecutivo medo de ficarmos sozinhos e de sermos postos de parte; o medo de não nos quererem ouvir e de não nos darem o devido valor; o medo de sermos considerados uns fracos ou pior, uns fracassados!
Instinto natural do animal que ainda somos. E como qualquer animal de manada, não subsistimos sozinhos. As várias experiências feitas ao longo do século XIX provaram que os recém-nascidos criados sem afecto, apenas com alimento e higiene básicos não sobreviveram. Os párias da Idade Média enlouqueciam mais cedo ou mais tarde com base na sua expulsão da sociedade. O suicídio era uma causa de morte comum entre os primeiros habitantes do deserto Texas, onde eram precisos alguns dias até se encontrar outro Ser-Humano.
Não tenho medo de enlouquecer, sei, por experiência própria, que mais cedo ou mais tarde estarei por aí aos pulos com todos os outros, não tendo tempo sequer para aquilo que devia, de facto, estar a fazer. Só não gosto de ficar à espera das oportunidades ou das brechas para as criar. É uma espera muito entediante e, principalmente, muito solitária.
4 Comments:
Ler todas as palavras deste post não me dá exactamente a essência do "nós-no-meio-dos-outros". Tudo se resume a um "estar-se".
e vamos cumprindo essa modorra, essa quebreira colectiva. Vamos estando, daí.
P.S. how about mailing me? sure have 1/2 questions for you!
Sim senhor, um post com sentimento.
Exprimiste bem o que te saía à cabeça e gosto disso. Admiro-o por não ser capaz de escrever posts destes com tanta temática pessoal.
Directamente falando, podes ser não tão socializavel mas não deixas de ser extrovertida. Eu sou exactamente o contrário. agora o irónico... Já fizeste muitos amigos em Londres?? (:D que pergunta tão delicada, vem mesmo a calhar)
Está um bom post maninha!
"Have some nice... years in England!"
(de volta ao mundo virtual :P) essa não é de todo a ideia que eu tenho de ti! (também não somos propriamente íntimas)sei que parece parvoíce mas sempre te imaginei uma pessoa ultra-sociável,aquele tipo que onde quer que vá tem sempre amigos,a menina que as crianças sempre adoram,mas que também sabe ter uma conversa (minimamente)(e apenas digo isto por não te conhecer muito bem,e não com o intuito de te ofender)decente e sempre te imaginei naqueles jantarzinos betos onde toda a gente se chama "salvador" e "madalena" e se tratam todos por tia... :P enfim, a verdadeira socialite!!! :D
Have fun in England
meus caros, estou otima, alias em breve vira um post para mostra-lo... agora estou e ainda sem net no meu quarto, logo a escrever com menos frequencia e com ainda menos acentos! lol
one thousand kisses from the UK, where everything's OK (piada parva)
joana
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