Homossexualidade, Aceitação e Homens - três componentes de um triangulo de Diógenes
Se lhe chamo Triangulo de Diógenes é porque nada há da mais cínico que um bom português. Eu gosto, a sério que sim, porque, de uma forma muito directa, também me esforço por ser o mais cínica que conseguir. Convenhamos, não é um cinísmo daqueles à hipócrita - nem pensar - é um cinísmo assumido, orgulhoso e aliado ao seu irmão sarcasmo, nas melhores ocasiões.Prosseguindo... Não era bem disto que eu hoje queria falar. Hoje proponho-me a abordar um tema perigoso, periclitante: a Homossexualidade.
Não, desculpem, mas não venho para aqui julgar o que é ou não a causa da homossexualidade, isso a mim não me interressa pevas e, como não sou médica, nem sou demagoga, nem psicóloga, nem filósofa (só nas horas mais entediantes), acho que não tenho a mínima aptidão para o fazer. Diga-se de passagem, acho que ninguém o tem e acho ainda, que ninguém o devia ter. Porque quem é homossexual é que sabe porque o é e, talvez, nem o saiba sequer, tal como eu não sei porque sou heterosexual. São coisas que se sentem, que se são. Não são coisas que se analisem.
Perguntar-me-ão vocês, porque me apeteceu agora falar sobre isto. Homossexualidade? Que raio de tema!
Pois bem, a verdadeira razão é que, nos últimos meses, me tenho cruzado com várias pessoas que o são. Infelizmente, nem sempre me cruzo com elas nas mais felizes situações.
No passado mês de Setembro, um amigo de alguns anos faleceu vítima de SIDA. Foi, como devem imaginar, um abalo muito grande e fez-me pensar muito sobre o assunto.
Como muitos homossexuais em Portugal (sejam eles homens ou mulheres) não era publicamente um homossexual assumido. Era-o de uma forma apenas natural. Sabem, quando ninguém vos diz que ele o é, mas toda a gente sabe. É uma forma muito portuguêsa de assumir e de lidar com a homossexualidade. Sabe-se, presume-se e pronto.
Já conhecia - e conheço - outros homossexuais. Na minha família a homossexualidade é aceite enquanto um facto natural. Se quando era pequena abria muito os olhos ao saber estas coisas, também de muito pequena aprendi que se deve respeitar, conviver e discutir abertamente. As coisas são como são e devemos chamá-las pelo próprio nome.
Mesmo assim, sempre vivi rodeada de homofóbicos, pessoas discriminantes, homens que se sentiam totalmente constrangidos quando havia um homossexual por perto. Como tudo o que deve respeito à sexualidade humana, o Bom-Português transorma-a em anedota, num piada burgessa, vaudevilleana. Basta olharmos para os "grandes humoristas" portuguêses, como o Fernando Rocha e o Sr. Herman José. Enfim...
Quando cheguei ao Reino Unido, conheci um colega, que - percebi logo - era homossexual. Logicamente, não se dirigiu a mim de mão estendida e disse "Olá, o meu nome é ****** e sou homossexual.". Novamente, era um facto naturalmente assumido. Pensei que as coisas aqui se processassem da mesma maneira que em Portugal.
Enganava-me.
Dias mais tarde, numa situação algo caricata, vim a conhecer o namorado dele. Apresentou-o enquanto tal e não havia inseguranças, temores ou qualquer tipo de complexos na maneira como o disse. Foi directo: "Este é o **s***, o meu namorado." Achei - óptimo - um homem com H grande! Que assume aquilo que é, seja esse facto aceite ou não pela sociedade. Mas era aí que me enganava. Compreendam, eu parti sempre do princípio, que tudo isto era um ENORME gesto de coragem. Obviamente que o é, mas eu estou muuuuito longe de Portugal.
Ou seja, quando soube que o meu amigo era homossexual, pensei que era das poucas pessoas que o sabiam, que ele iria tentar ocultar o mais longo tempo possível. Até porquê, ele tinha um amigo também daqui, que - julgo - não era gay. Para mim todo este imbróglio ia criar uma data de desconfortos nos dias seguintes.
Mas a verdade é que, vim a descobrir, em Inglaterra (ou pelo menos em Londres, no meio que frequento) a homossexualidade é aceite, englobada e vivida. O nosso outro amigo (vamos chamar-lhe Micheal) se não sabia já, pouco ou nada ficou surpreendido e pouco ou nada alterou o seu comportamento para com o ******. Este facto repetiu-se em todos os outros homens que lidam com o ****** e, como comecei a estar alerta, em todos os outros casos de amizades entre hetero- e homossexuais do sexo masculino com que me deparava.
Os homens britânicos não se sentem ameaçados pelos gays, não se sentem desconfortáveis. Não são tendencialmente homofóbicos, não são descriminantes, não são conservadores. Depois de alguma reflexão concluí que nada há de mais natural, num país que se vê premanentemente rodeado por escândalos politico-sexuais. Existem, de certeza, mais de uma dúzia de fascistas anti-homossexuais, principalmente no Boroughshire-Upon-The-Bree e terriolas que tais. Até os há, por certo, por aqui por Londres. Mas a questão é que, a maioria dos Londrinos, enquanto população multifacetada e multicultural, aceita a homossexualidade como um dado adquirido do género humano e não como uma aberração, como é tomado em Portugal.
Quão fascinante (e refrescante) é vêr jovens da minha idade, comunicando descontraídamente, alheios e desinteressados das opções sexuais de cada um. Havia de ser em Portugal e já os estavámos a ver com, pelo menos, dois metros e meio de distância (outro mito português é que todos os gays têm SIDA e que o HIV se transmite ao toque).
Se em Portugal o sexo masculino, a homossexualidade e a aceitação social são uma triologia diogeneana, aqui, onde me encontro fascinada agora, todos estes elementos não passam de átomos irmãos numa teoria de Demócrito.
(E devia eu continuar em Portugal?)
2 Comments:
desculpem estar a recorrer aos comments para pôr isto a limpo, mas o título "Triangulo de Diógenes" é um jogo de palavras intencional com o tonel de Diógenes. Primeiro, Diógenes morava num tonel (facto sabido por todos) segundo, tal como explico no post, quando digo triangulo, é porque a relação tripla entre os elementos que narro, é de todo em todo, cínica (pelo menos na realidade portuguêsa). Vai daí... quem "inventou" o cinismo foi Diógene e por aí em diante... desculpem lá a maneira atabalhoada com que explico isto, mas houve aí uns comentários e este foi o modo mais rápido de publicar as explicações...
até breve!
Adorei este post! Mostra mesmo o atraso de vida que Portugal é. Vivemos com um preconceito enorme quanto à sexualidade dos outros quando no fundo não temos nada a ver com isso. É um tema para o qual não há discussão possível. Não podem existir argumentos contra! Nem que nos apareça um estúpido fascista conservador à frente a dizer: "Se todos nos fossemos homossexuais não havia continuação para a raça humana." É uma opinião má a apresentar porque:
1º É impossível que todo o mundo se torne homossexual.
2º Ainda por cima hoje até já há meios científicos para continuar a procriar (parece que estou a falar de animais) sem se fazer sexo.
Isto pode parecer um ponto de vista já explorado (que até deve ser) mas é verdade ("verdade" inclui cientificamente e fisicamente provado). E para o concreto que é a ciência não existe discussão possível.
Bjs
P.S.: Como vai isso aí no Kingdom?
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